domingo, 20 de fevereiro de 2011

O velho e bom vinho está OUT

por katia maia

Outra estranha mania que possuía era a de prometer. Para conseguir e alcançar o que ela chamava de ‘graça’ prometia que iria a pé de Brasília a Salvador, dizia que depositaria dinheiro na conta do santo, que faria doação disso e daquilo e que pararia de comer doce, tomar refrigerante, beber vinho! Pode?
 - Não, definitivamente, não Pode!
Vinho era o sacrifício supremo. Sair andando por aí feito ‘Forrest Gump’, doar toda a sua fortuna e ficar sem nada como uns e outros malucos por aí, até que tudo bem. Mas, parar de beber vinho.
- Não essa era demais para o seu entendimento. Disse uma amiga próxima.
- E agora? Pensou. Já prometi ‘pro’ santo. Respondeu a si mesma.
- Agora, ferrou. Respondeu a amiga. Quanto tempo você ficará sem vinho? Perguntou.
- Um ano.
- Um ano! Você enlouqueceu? Isso é medieval. Isso parece coisa de do tempo das cavernas. O mundo hoje é outro. Está mudando. Olhe o oriente Médio! Está deixando o hábito medieval de aceitar ditaduras. Até o Gaddafi vai cair (se Deus quiser, pensou), o Mubarack caiu, o mundo pulsa, se conecta, protesta, linka os extremos e você com essas promessas medievais! Gritou a amiga.
- Não adianta. A promessa estava feita e toda vez que pensava em quebrá-la lembrava-se do motivo que a levou a tal sacrifício supremo e voltava atrás, mantendo sua abstinência.
Claro que a partir do momento em que fizera a promessa, tudo girou em torno do vinho.
Ligava o rádio e lá estava o comentário do Renato Machado indicando os melhores vinhos e falando do quanto é saudável tomar uma taça por dia. Combinava de sair com uma amiga e a primeira coisa que lhe perguntava era:
- Uma taça?
Saía para se encontrar com a turma num dia de sábado frio e propício para o vinho e mal pisava no recinto a primeira pergunta:
- Você toma o quê? Um vinho, claro.
Não, não e não! Não iria tomar um vinho. Não iria, aliás, tomar nada porque a promessa era mais abrangente e falava em qualquer tipo de álcool. Uma gota sequer.
Isso a torturava. Não sabia o quanto seria difícil. Pensou que estava dando a volta no santo com uma promessa daquela. Afinal, passara muito tempo de sua vida sem beber.
Estava errada.
Havia momentos em que jurava que tinha virado alcoólatra, tamanha era a falta que sentia do álcool e, assim como os AAA, ela repetia para si mesma: a cada 24 horas, uma hora vencida sem a bebida.
Não estava sendo fácil. Lembrou-se da música da década de 80 (se não lhe falha a memória) cantada por uma interprete chamada Katia. Os mais novos certamente não se recordarão. Mas era uma cantora cega, apadrinhada por Roberto Carlos e que foi a vários Globo de Ouro – programa da tarde de sábado da TV Globo ou da noite, que divulgava os cantores do momento.
Bom, ‘resuming the subject’. Não estava mesmo sendo fácil e ela cantava que “Não está sendo fácil.// Não está sendo fácil viver assim...
A vida sem vinho, pensou, fica muito chata, menos romântica, sem graça sem divertimento. Quando acaba a promessa?
- Vixi, ainda tem tempo pela frente! Desconversava.