quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Crônica de um puxão de orelha mal dado

Então, ela não sabia que roupa suja se lava em casa?


Perguntou a amiga ao ver a declaração em público.

Mas, por que ela falou isso na frente de todo mundo? Fica feio! E logo no meio de uma reunião importante como aquela? Ponderou.

Bom, a verdade era que a matriarca era assim mesmo, sem papas na lingua quando o assunto era repreeender e fato era que todo mundo tinha a estranha mania de justificar tudo o que ela fazia. O que dizia era lei. Talvez devido ao seu temperamento forte, sua forma de tratar os outros como se fossem capacho ou seu jeitinho bem especial de dar a palavra final e não aceitar questionamentos.

Era a matriarca de uma grande família tradicional de uma República incrustada no meio do oceano de politicagem e ‘maracutaias’. Tinha assumido o posto depois de comprovada capacidade técnica e de gestão de estar no lugar certo na hora certa e de ter caído nas graças do primo mais popular da família. Aquele que todo mundo gosta de ouvir, conversar, ouvir os causos. Aquele que contagiava toda a família quando falava. Aquele... O cara!
Pois bem. Uma vez matriarca, mandava e desmandava e exigia eficiência e celeridade em suas ordens. Aliás, antes mesmo de ser tida e vista como a matriarca já havia se embrenhado nos corredores da família e vira e mexe pedia celeridade para esse ou aquele assunto que envolvia algum amigo mais próximo ou parente.

Mas tudo isso, feito por debaixo dos panos era permitido naquela república alegre e pacífica onde todo mundo gostava mesmo era de uma boa farra e por mais que discordasse e reclamasse abaixava sempre a cabeça e concordava com a matriarca.

Recentemente, os filhos dos filhos dos primos distantes pediram aumento na mesada. Queriam um uppgrade de 62% . O reajuste até saiu, mas para os filhos dos primos mais próximos. Para os distantes, veio um aumentinho menor. Algo em torno de 5%. Um caso típico do “é o que eu posso dar e cala boca e não chateia”.

Não chateia mesmo. Porque os filhos dos filhos dos primos distantes reclamavam, mas não iam adiante e terminavam aceitando a ‘esmola’. diziam que no próximo ano seria diferente, que lutariam mais por seu espaço e que iam fazer barulho. "Qual o quê"! A história se repetia há anos.

Bom, tudo fazia parte do jogo. Da tal política de boa vizinhança entre os próximos e os distantes. Assim a vida seguia. Mas, (retomando) lavar roupa suja em público?

- Isso já é demais! Repetiam os familiares aos quatro cantos da república.

Será que ela não sabe que, como toda boa família, repreensões, puxões de orelha e reclamações são feitas da porta para dentro. Questionavam.

E o pior que puxões de orelha públicos estavam ficando cada vez mais constantes. A dúvida era: continuariam?
- Dúvida?
- Não havia dúvida. Esse era o jeito da matriarca e quem quiser evitar que ande na linha. porque ela fala mesmo. Feio ou não, não importa. Ela tratava de colocar a culpa nos outros e a vida seguia na república incrustada no meio do oceano de politicagem e ‘maracutaias’  e a família? bom, a família tinha a matriarca que merecia. Assim ditava a democracia.