segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

tragédia dentro da tragédia...

LÍDERES DE GANGUES VOLTAM À FAVELA NO HAITI
Autor(es): Agencia O Globo/Gilberto Scofield Jr.
O Globo - 18/01/2010



A reorganização das gangues criminosas em Cité Soleil - a maior favela do Haiti, com cerca de 300 mil moradores vivendo em extrema pobreza, amontoados em ruelas de esgoto a céu aberto - virou o grande desafio aos esforços de estabilização do país e ao projeto de reconstrução após o terremoto. Os cerca de três mil criminosos que fugiram da Penitenciária Nacional após os tremores se armaram com os fuzis de guardas mortos pelos desabamentos, renderam os que sobreviveram e voltaram a se refugiar em Cité Soleil, onde começam a se reagrupar e já ameaçam os moradores.

A violência explodiu também nas ruas da capital. Com a demora da chegada de alimentos e remédios, os saques se tornam cada vez mais generalizados. Assassinatos e linchamentos foram registrados ontem. Um homem foi queimado e outros dois mortos a tiros.

Segundo o relato de moradores de Cité Soleil (muitos não se identificam temendo represálias), as gangues atuam principalmente à noite, quando invadem barracos e casas, batem em seus ocupantes e roubam seus poucos bens mais valiosos. De dia, andam anônimos pelas ruelas (onde dormem moradores que temem a queda de seus barracos), sem armas, para não chamarem a atenção das forças militares de segurança.

O repórter do GLOBO esteve ontem durante mais de uma hora dentro da favela, e Dorsaisvil Ferdnand, presidente da Organização Popular para a Mudança de Drouillas (um dos maiores sub-bairros de Cité Soleil), só concordou em conversar com o jornal dentro da sede da organização, com medo que uma das pessoas que frequentemente se aglomeram em volta de equipes de reportagem fosse um bandido anônimo.

- Estamos desesperados porque a pacificação está ameaçada pelos bandidos que estão refugiados aqui em casas de parentes e amigos. Eles estão tentando assustar a população arrombando casas à noite, batendo nas pessoas e roubando suas coisas. Voltamos a viver com medo e precisamos urgentemente que a Polícia da ONU ou do Haiti venha para cá antes que seja tarde demais - disse Ferdnand. - A favela sempre foi um reduto das gangues criminosas que historicamente assustaram Porto Príncipe. Isso não pode voltar a acontecer.

Um dos lugares mais violentos

O desespero de Ferdnand tem explicação. Cité Soleil era considerada um dos lugares mais violentos do mundo até que, em 2006, tropas da ONU e da polícia haitiana, lideradas pelo Exército brasileiro, invadiram a favela, prenderam ou mataram a maioria dos líderes das gangues e pacificaram a área, levando serviços públicos com o apoio do presidente René Préval, eleito naquele ano.

Apesar de algumas críticas de entidades de direitos humanos, que acusaram a ação militar de ter matado ou ferido tanto bandidos quanto inocentes simpatizantes do deposto ditador Jean-Bertrand Aristide (que tinha na região um seus maiores bastiões), a estratégia foi considerada uma das grandes vitórias da Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti (Minustah), no geral, e das tropas brasileiras, em particular.

O temor dos moradores de Cité Soleil - um local que também foi afetado pelo terremoto, mas em menores proporções do que outros bairros - é que a comunidade, que hoje dorme nas ruas fétidas da favela em meio a muito lixo e esgoto, passe a sofrer também a violência das gangues que se reagrupam.

- Tenho medo que Cité Soleil volte a ser o que era antes da ocupação - afirmou Joseph Stenio, morador local.

O general Floriano Peixoto Vieira Neto, comandante das tropas de paz da ONU no Haiti, afirmou que situação de segurança em Porto Príncipe não fugiu ao controle, mas admitiu que as autoridades haitianas e as Nações Unidas não podem deixar que o reagrupamento de gangues ou mesmo a insatisfação da população haitiana com a ajuda oficial se transformem em novos focos de violência na capital. Ele disse que determinou a intensificação nas ações policiais e de segurança das forças militares dos 17 países sob seu comando na capital e pediu o reforço de 200 soldados das tropas argentinas e uruguaias que atuavam em outras cidades no interior do Haiti para garantir a segurança na capital.

- Não há descontrole sobre a segurança no Haiti, mas é natural que, diante de uma catástrofe destas proporções, o nível de tensão aumente. Todos os dias me reúno com os chefes militares de todos os países, meu Estado-Maior, fazemos diagnósticos da situação e traçamos estratégias para todas as áreas - disse o general.

Apesar de reconhecer que os criminosos que escaparam da cadeia representam um sério risco à segurança pública, o comandante da Polícia Nacional do Haiti, Mario Andresol, tem opinião similar à do brasileiro.

- Minha mensagem a todos esses bandidos que estão se aproveitando da situação é que vamos prendê-los da mesma forma que fizemos antes - disse. - Estamos tomando as medidas apropriadas para combater esses criminosos.

O presidente do Haiti, René Préval, disse que os 3,5 mil militares americanos que estão começando a chegar à cidade ajudarão as tropas de paz da ONU e a polícia local a garantir a segurança.

- Temos 2 mil policiais em Porto Príncipe seriamente afetados e 3 mil bandidos fugidos da cadeia - resumiu o presidente. - Isso dá uma ideia de quão mal está a situação.

Linchamentos e assassinatos de supostos ladrões foram registrados ontem nas ruas de Porto Príncipe. Dois foram mortos a tiros. Um outro foi queimado.

- Os haitianos estão fazendo justiça com as próprias mãos - afirmou o professor Eddy Toussaint, em meio à multidão que observava um dos corpos. - Não há cadeias, os criminosos estão livres, não há autoridades no controle.

Com as pessoas cada vez mais desesperadas e na ausência total de autoridade, saqueadores invadem lojas destruídas em busca de comida e qualquer outro bem que possam encontrar.

Briga pelo comando

HAITI EM RUÍNAS
Da Folha de São Paulo

Países lutam para definir papel em socorro
Comunicado divulgado ontem e reunião do Conselho de Segurança da ONU, hoje, tentam esclarecer quem faz o quê Brasília e Washington reivindicam protagonismo que corre o risco de ser prejudicial ao objetivo final, que é ajudar os haitianos

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Visando pôr fim a uma disputa por liderança que pode atrapalhar os esforços de ajuda humanitária, EUA, Brasil e outros países tentam definir o papel dos envolvidos na condução dos esforços de resgate, segurança e reconstrução do Haiti. Brasília e Washington reivindicam um protagonismo que, segundo assessores de ambos os lados, pode prejudicar o objetivo final da ação, que é ajudar os haitianos atingidos pelo terremoto. Por pressão do Brasil e a pedido do México, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas se reúne hoje para tratar do assunto.
A reunião da instância principal da ONU, na qual o Brasil tem assento temporário desde 1º de janeiro, segue outra tentativa de esclarecer as funções de cada um, um memorando conjunto que seria divulgado na noite de ontem mas não foi tornado público até a conclusão desta edição. O Brasil chefia a Minustah, a força de paz da ONU, hoje com 7.000 homens no Haiti, mas na semana que começa os EUA terão enviado 10 mil soldados ao país.
"Está sendo negociado memorando para que fiquem claras quais são as responsabilidades", disse Antônio Patriota, secretário-geral do Itamaraty, em entrevista ontem, na base militar brasileira na capital haitiana. "O meu entendimento é que essas tropas americanas estão exclusivamente para dar apoio à ajuda humanitária, não terão função de segurança pública, que é a função da Minustah. E, aqui em Porto Príncipe, muito especificamente das tropas brasileiras."
Em visita a Porto Príncipe no sábado, Hillary Clinton sugeriu que o governo de Barack Obama buscava mais poder de ação no país para poder atuar sem amarras inclusive em questões de segurança. A secretária de Estado americana disse que esperava que o Legislativo local aprovasse decreto de emergência aumentando os poderes do presidente haitiano, René Préval, a exemplo do que ocorreu após os furacões de 2008.
Segundo Hillary, o decreto dá ao governo haitiano "uma quantidade enorme de autoridade, que eles podem exercer eles mesmos ou, mais provável nessa situação, delegar". De acordo com a chanceler, as forças americanas não correm o risco de entrar em em choque com as brasileiras. "Estamos trabalhando para auxiliá-los, mas não para suplantá-los", disse, sobre as forças da ONU, ressaltando que "eles estão aqui há anos, têm um comando e um controle estabelecidos".
Como parte das manobras diplomáticas para esfriar a tensão em campo, o comandante da força-tarefa dos EUA para o Haiti, general Ken Keen, elogiou seu colega brasileiro, o general Floriano Peixoto, à frente da Minustah, em dois programas de TV ontem. Indagado sobre quem estava no comando no país, ele primeiro disse que era um esforço conjunto entre Haiti, ONU, EUA e comunidade internacional.
"Eu quero parabenizar a nação do Brasil, em particular o comandante das forças multinacionais aqui, o general brasileiro Floriano Peixoto", disse Keen. "Eu o conheço há 30 anos, nós trabalhamos juntos antes e estamos coordenando os esforços para fazer tudo o que pudermos para levar os suprimentos ao povo haitiano."
Em outro programa, respondendo a pergunta semelhante, o americano foi mais direto. Depois de dizer que definir o comando numa situação dessas era o maior desafio, ele confirmou que os EUA já estavam trabalhando em questões táticas e operacionais com Peixoto. "Mas nós vamos elevar isso, e vai ser aí que teremos de coordenar e sincronizar esses esforços para assegurar que estamos colocando o que precisamos em solo, tão rápido quanto possível e usando todas as habilidades à disposição."

A situação sempre pode piorar

HAITI EM RUÍNAS

Tremor pode reerguer gangues, diz coronel
Após terremoto, muitos bandidos escaparam de presídio e ainda roubaram armas da polícia haitiana, que sofreu baixas

"Situação está pior do que em 2004, virou terra arrasada", afirma Ajax Pinheiro, que vai assumir o comando de batalhão brasileiro no país

LUIS KAWAGUTI
DO "AGORA"

O terremoto no Haiti criou o ambiente ideal para o ressurgimento de grupos rebeldes e gangues criminosas, segundo o coronel Ajax Porto Pinheiro, que deve chegar ao país na quarta-feira para assumir o comando do Brabatt (Batalhão de Infantaria da Força de Paz), no qual está lotada a maioria dos 1.266 militares brasileiros que hoje servem no país caribenho.
As tropas da Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti) chegaram ao país em 2004 e em três anos conseguiram desarticular todos os grupos armados e pacificar o país. Contudo, segundo o coronel Ajax, há muitos indícios de que, embora desmobilizados, os grupos rebeldes ainda mantêm estoques de armamentos escondidos.
O maior desses indícios é o de que o número de armas apreendidas em cinco anos e meio de missão é muito inferior ao armamento usado em combates contra as tropas entre 2004 e 2007.
"O ambiente está ideal para eles [grupos armados]. O presídio ruiu, muitos líderes de gangues escaparam e, na fuga, ainda roubaram as armas da Polícia Nacional do Haiti", disse o coronel.
Além disso, na hora do terremoto, policiais haitianos abriram as celas de diversas delegacias de polícia por razões humanitárias, libertando ainda mais criminosos.
Os militares brasileiros temem agora que, mesmo que prendam criminosos, tenham dificuldades para entregá-los à polícia, cuja organização foi prejudicada.
Também agrava o cenário o fato de o Brabatt ter perdido a base Tebo e o ponto forte 22, duas fortificações que asseguravam o domínio da favela de Cité Soleil -historicamente o principal foco de insurgência no país. A região ainda é guardada por uma fortificação chamada ponto forte 16, que não foi abalada pelo terremoto.
Fora isso, outra base, o Forte Nacional, também teve a estrutura abalada. Era a partir dele que os brasileiros vigiavam Bel Air, outro antigo reduto rebelde. O palácio presidencial, que também servia de base aos brasileiros, ruiu complemente.

Pontos positivos
Os aspectos favoráveis à Minustah, segundo Ajax, são o melhor treinamento e a superioridade bélica dos capacetes azuis e o fato de o Campo Charlie, principal base da ONU no Haiti não ter sido abalado pelo terremoto. "Além disso, a tropa que chega do Brasil está mais descansada", disse.
Segundo Ajax, as duas prioridades de seu comando serão retirar corpos das ruas -para evitar a proliferação de doenças- e evitar a reorganização das gangues. Ele acredita que o comando militar da missão deve transferir tropas de outras nacionalidades que atuam no interior do país para ajudar no patrulhamento da capital. O reforço maior deve vir de militares que hoje estão na fronteira com a República Dominicana.
"Hoje a situação está pior que em 2004. Naquela época, as ruas eram precárias e tinham barricadas de lixo. Hoje praticamente não tem rua, virou terra arrasada", disse.
O coronel deve assumir o comando do Brabatt pelos próximos seis meses com uma tropa composta por membros da Brigada Paraquedista do Rio de Janeiro, de uma brigada de infantaria motorizada e de outra especializada em combate em montanhas. Somados a fuzileiros navais e engenheiros, o efetivo total será de 1.360 homens.
Ajax também disse que esses homens foram treinados para garantir a segurança das eleições legislativas marcadas para fevereiro. Após o terremoto, porém, o pleito não deve acontecer mais.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Fernando meirelles para Época


Cineasta confirma “consultoria” ao Partido Verde
Diretor Fernando Meirelles fala à Época sobre a sua relação com a campanha presidencial que Marina Silva disputará pelo Partido Verde

Juliana Arini

Época -
Como começou a sua relação com o Partido Verde (PV)? Partiu de um convite ou foi espontânea?
Fernando Meirelles - Eu disse que votaria na Marina ao ser abordado por um programa de TV. E o Fábio Feldman (possível candidato ao Governo de São Paulo pelo Partido Verde), pai de um amigo do meu filho, ficou sabendo e me ligou para conversarmos a respeito e pedir uns palpites sobre a comunicação da candidata. Depois deste encontro me dispus a fazer os filmetes para o Instituto Sócio Ambiental e por causa disso acabei dando palpites. Faço isso como eleitor, não pretendo me envolver na campanha profissionalmente.

Época - Qual foi a sua participação no programa que vai ser exibido no horário partidário do Partido Verde, em fevereiro?
Meirelles - O programa do PV está sendo produzido por uma produtora do Rio de Janeiro, não estou envolvido. Fiz alguns programetes com a Marina para o site do Instituto Sócioambiental, em novembro, e nos demos bem. Então eles pediram uns palpites apenas. Só isso.

Época - A imprensa nacional divulgou que o filme vai fazer uma comparação da trajetória da senadora Marina Silva com a do presidente Lula? Está certa essa afirmação?
Meirelles - Sem querer ser evasivo, não sei exatamente qual será o tom do programa do PV, mas não há dúvida que a trajetória da Marina e a do Lula têm muita relação. Os dois vieram de lugares aparentemente improváveis para se forjar líderes do país, a diferença é que o Lula cresceu por saber fazer bons discursos, pela sua sensibilidade política, enquanto a Marina optou pela via da educação. Estudou, virou uma educadora, através do estudo e de leituras passou a atuar e encontrou seu espaço. Em 40 anos se tornou uma mulher extremamente esclarecida, que sabe onde está pisando, conhece as correntes de pensamento ao seu redor e tem uma visão de mundo consistente e extremamente moderna. Se o Lula gosta de ser visto como o pai dos brasileiros, o pai que dá a mesada, a Marina talvez tenha o papel da mãe, aquela que vai dizer: "Vai estudar para poder ser alguém na vida. " Particularmente gosto mais deste papel.

Época - Qual seria o traço mais relevante da trajetória de Marina Silva que vai ser abordado no filme?
Meirelles - Não posso responder pelo PV, ou por ela, mas a educação parece ser o universo natural da Marina. Talvez até mais do que sua bandeira mais conhecida, o desenvolvimento sustentável. Ela fez o Mobral com 16 anos, uma idade em que já tinha um senso crítico e podia pensar no próprio aprendizado até passar a ensinar. Por ter vivido esta experiência de ponta a ponta conhece muito bem os problemas da falta de qualidade do ensino no Brasil. Acredito que esta atenção que ela dá a educação seja colocada no programa. Seria algo natural.

Época - Em uma entrevista recente ao Jornal da Tarde o senhor declarou que vai apoiar a candidatura de Marina Silva. Porque tomou essa decisão?
Meirelles - Sinto que estes últimos 16 anos que muitos consideram ser o início de uma nova etapa para o país sejam na verdade o final de um ciclo que começou com Getúlio Vargas. Em 2010, não é mais possível defender o desenvolvimento a qualquer custo, o crescimento a taxas altíssimas. Será que não está suficientemente claro que não há mais espaço no planeta para crescermos de qualquer maneira. Que nossos recursos naturais estão se esgotando, que em pouco tempo não haverá mais peixes no mar ou gelo na calota polar? Por mais óbvias que sejam estas constatações a outra candidata ainda fala em aceleração do crescimento e extração de petróleo como eixos do seu programa. Acha razoável fazer uma estrada ligando Manaus a Rio Branco. Qual a diferença desta visão de país da visão que era defendido por Getúlio e todos os governos que o seguiram? Essa visão de desenvolvimento do século passado precisa ser enterrada e a Marina Silva parece ser a cabeça que consegue ver e pensar um mundo onde os paradigmas são outros. Por isso sinto que ela seja o que há de mais novo e moderno, fora seu comprometimento com o que diz. Esse é um dos pontos principais por eu apoiar a candidata, não que meu voto vá fazer grande diferença.

Época – Não houve inovações nos governos anteriores?
Meirelles - O governo FHC universalizou o acesso ao ensino no Brasil e o governo Lula deveria ter dado o passo seguinte, que seria o investimento na qualidade de ensino, mas infelizmente isto não foi feito. Foram oito anos praticamente perdidos para a educação o que significa uma geração sem capacitação adequada, o Brasil melhorou seus índices econômicos mas caiu nos rankings de educação no mundo. A busca de educação de qualidade é a outra prioridade para a Marina Silva, natural para quem venceu por causa da educação que teve. Isso também explica meu voto.

Época - O senhor também vai colaborar na direção (ou consultoria) dos vídeos feitos para o programa eleitoral gratuito do PV?
Meirelles - Mesmo que me dispusesse a dar mais palpites não poderia, pois no meio do primeiro semestre devo ir para os EUA para preparar e rodar um novo longa.

Diário do desastre

Diário do desastre
Este é o dramático relato de Diego Escosteguy, o repórter de VEJA
que narra a destruição e o desespero enfrentados pelos haitianos
Fotos Gilberto Tadday


"Escrevo este relato no chão de Porto Príncipe, a cidade que acabou e agora recende a morte e sofrimento. À minha frente, está o outrora agradável Hotel Villa Creóle – na verdade, metade dele.

A parte que resta está servindo como ambulatório para tratar feridos do terremoto. O cheiro pútrido dos corpos que se estendem pelas ruas e jazem nos escombros obriga-me a usar uma máscara cirúrgica. Não adianta muito: a náusea é inevitável. A cada cinco ou dez minutos, ouço o barulho dos helicópteros que chegam e se vão – espera-se, aqui embaixo, que carreguem comida e água, tudo de que os haitianos mais precisam neste momento. Esse é um doce som. Há um bem pior, que ressoa desde que cheguei aqui, no começo da manhã: são os gritos agudos de dor que partem do ambulatório e da calçada, onde feridos padecem, sem anestésicos nem esperança, ao lado de voluntários abatidos pela impossibilidade de fazer mais e pela certeza de que nada além da morte aguarda esses infelizes abandonados à própria sorte.

‘Aaaaahhh’, grita uma voz de criança, silenciando todos que estão perto do ambulatório.

Eu e o fotógrafo Gilberto Tadday pousamos de helicóptero num aeroporto inteiramente ocupado pela solidariedade do mundo: havia aviões americanos, franceses, espanhóis, mexicanos. Do lado de fora, o caos. Haitianos gritavam por ajuda, por notícias dos familiares. Em alguns, já se notava raiva – e não mais desespero. As ruelas cinza de poeira e terra são bordejadas por filas indianas de homens, mulheres e crianças em busca de comida, água, remédio. Pela janela do carro, alguns nos pediam ajuda.

Dos prédios desabados, fragmentos de concreto caíam constantamente nas calçadas, tal qual flocos acinzentados de neve, pousando sobre o monturo de tijolos, dejetos e restos humanos nas calçadas. Não é difícil compreender por que já começam a se perceber tumultos nas ruas. No que costumava ser um posto, vimos uma briga por galões de gasolina. A frustração está dando lugar à fúria. Chega-se rápido à violência. ‘Ninguém vem nos ajudar. Precisamos de tudo para sobreviver’, diz, revoltado, Adolph Fanfan, de 25 anos. Ele perdeu um irmão, um tio e uma prima.

Chegamos com dificuldade à perigosa região onde a missionária Zilda Arns morreu. Lá, na tradicional Igreja Sacré Coeur, que desabou quando ela conversava com fiéis, sobraram tijolos, corpos – e uma solitária imagem de Jesus Cristo em frente ao altar. Um esqueleto de telhas vermelhas e algumas colunas de tijolos mantêm em pé a igreja. Dentro, cadeiras brancas de plástico, perfeitamente alinhadas, esperando uma missa que nunca virá. Uma construção menor, atrás da igreja, também desabou. Encontrei quatro voluntários tentando levantar os grossos pedaços de concreto, sem nenhuma ferramenta – e sem sucesso. Perguntei o que procuravam. ‘Cerca de vinte pessoas’, respondeu um deles. A força terrível do cheiro de corpos decompostos paira sobre tudo.

Estava lá o seminarista Bourgouin Meltone, um articulado jovem de 28 anos. Ele conhecia Zilda Arns. ‘Eu conversava com ela aqui’, diz Meltone, olhando para a torre de tijolos. ‘Ela era uma pessoa iluminada.’ O seminarista estava em outra paróquia quando o terremoto começou. O arcebispo Joseph Serge Miot morreu ao lado dele. Conta o haitiano: ‘Corri para cá e ajudei a retirar alguns sobreviventes. Era tarde para ela’.

O que era possível fazer com as mãos, os haitianos já fizeram. ‘Sem equipamentos, não temos como fazer mais nada, mais nada’, diz Tol Polyte Wolking, um estudante de 23 anos. Ele teve sorte. Seu casebre resistiu à força dos tremores. Mas ele ainda procura vítimas na rua onde Zilda Arns morreu. Além da igreja, havia uma moradia para seminaristas e uma escola infantil. Ao nos aproximarmos da escola, Polyte retirou sua camiseta vermelha, molhada de suor, cobriu o nariz com ela e apontou para a pilha cinza de tijolos. ‘Lá’, murmurou o haitiano, falando para si mesmo, ‘eles ainda estão lá dentro’.

Pouco antes de terminar este relato, a terra tremeu mais uma vez. Um haitiano me disse: ‘O senhor tem que sair daqui. O resto do hotel pode desabar’. Levantei-me e fui embora, tentando não olhar para trás."

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A fé remove montanhas... e o voto?



Como estou de férias. Quer dizer, num período assim... Meio de folga... Sabe como é! Estou meio 'out' e longe das notícias do dia a dia. Claro que não estou 100% longe dos fatos. Claro que não dá para ficar indiferente ao que tem acontecido pelo Brasil em termos de tragédias. Claro que vi, sei e acompanhei o drama de Angra dos Reis. Claro que - como todo brasileiro - me pergunto: por que ninguém faz nada se é sempre a mesma coisa? Todo ano, vamos lá... desabamentos, deslizamentos de encostas, tragédias... 30.. 40... 53 mortos! Desce arquivo e roda as imagens.
Não, não é apenas arquivo. É repetição e descaso. Porque as tragédias são semelhantes, parecidas quase id~enticas, mas... Os atores são outros. Novas vítimas, novas mortes.
Lembro-me da tragédia em Santa Catarina. Comoção, doações, mobilização nacional. Tudo porque o povo brasileiro é solidário. É. É sim. O povo é. Mas, a solidariedade vai até a página dois quando o livro conta a história de governantes. Ninguém investe em precaução, prevenção... Por um motivo muito simples: dá trablaho e não aparece.
Quantos eleitores vão se lembrar que o governador tal ou o prefeito sicrano fez o escoramento da encosta? O eleitor vai se lembrar do político que trouxe asfalto para a porta da casa dele que fica bem no pé da encosta. Isso sim é que é obra!
Então, 'vamu lá'. A culpa é também do eleitor. Do morador que infelizmente perdeu sua casa, sua família e seus amigos. Ele votou, ele elegeu, ele comemorou o asfalto e não viu o escoramnto da encosta. Mais, ele reclamou quando a defesa civil o mandou sair da casa dele porque havia risco.
Estou culpando o morador que perdeu a família? Não, ele é uma vítima. Vítima dessa mentalidade fragil e fraca que temos na nossa cultura. E me irrito com tudo isso. Vejo que mudar hábitos, cultura e mentalidade é muito mais difícil do que mover montanhas. Então, tenhamos fé, porque a fé remove montanhas.
///~..~\\\

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Olha que linda!


Acabei de chegar em casa e olha quem eu encontrei na janela de minha varanda: a LUA! Não resisti. corri, peguei minha máquina fotográfica e peguei um pouco da beleza dela para mim.

Calo-me...(da série #resgates)

*A partir de hj, sempre que eu resgatar algum texto meu escrito e não publicado, vou postar aqui. O que é escrito é para ser publicado....