terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Calor reduz produção de ostras em 60%



Moluscos morrem devido à alta da temperatura da água do mar em até 4C; os que sobrevivem têm volume menor de carne

"Mortandade de verão", comum nesta época, mais que dobrou em relação a outros verões, passando de cerca de 35% para 82%

PAULO PEIXOTO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM FLORIANÓPOLIS

O aumento da temperatura da água do mar em até 4C, consequência do clima aquecido, intensificou a perda da produção de ostras em Santa Catarina, principal produtor nacional. A avaliação dos produtores é que a mortandade do molusco deve atingir 60% das sementes cultivadas na safra.
Esse percentual é muito alto em relação às safras passadas e tem relação com o verão mais quente. A chamada "mortandade de verão", comum nesta época, mais que dobrou em relação a outros verões: saltou de cerca de 35% para 82%. Significa dizer que de cada 100 sementes cultivadas no verão, 82 morreram.
As ostras que sobrevivem às águas quentes do mar chegam às mesas com volume menor de carne. Por isso, restaurantes de Florianópolis estão comunicando o problema aos clientes, mas dizem que a qualidade e as características do molusco estão preservadas.
A perda de sementes só não é maior porque, devido à crise econômica mundial, muitos produtores cultivaram menos na safra atual, afirma a oceanógrafa Flávia Couto, uma das proprietárias da fazenda marinha Atlântico Sul, um dos três maiores produtores do Estado.
O resultado final da safra 2009 pode ser menor do que o da safra anterior, que já não foi boa. Esse resultado, porém, só será conhecido em maio.
A produção média de ostras em Santa Catarina, entre 2004 e 2008, foi de 2.200 toneladas por ano.
Alex Santos, responsável pelo setor de aquicultura da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina), não acredita que a perda da safra 2009 atinja 60%, mas 50%.
Para a safra 2010, ele diz que a perda é alta, mas que ainda há tempo para o produtor reagir, comprando mais sementes.
Ocorre que ainda resta um mês para o fim do verão e as perdas vão continuar. As fazendas marinhas em Florianópolis registram temperaturas de até 32C (o pico foi na semana do Carnaval). Nos últimos dez anos, a temperatura máxima registrada tinha sido de 28C.

Reduzir perdas
O biólogo Mauro Almeida afirma que era comum que, ao longo do verão, a temperatura das águas atingisse 28C no máximo em dez dias -o que é já é alto para o tipo de ostras cultivado no Estado (a temperatura ideal é entre 17C e 22C).
Na atual safra, porém, já são quase 50 dias com temperatura superior a 28C.
Esta é a época do ano em que mais se consome ostra no Brasil, apesar de ser o pior período para produção. Para atender à demanda, o verão é a estação em que mais ostras estão no mar. Por isso a perda é maior.
Os produtores catarinenses filiados à federação estadual dos aquicultores, presidida por Fábio Brognoli, discutem formas de reduzir essa perda com o aquecimento do clima.
Debatem novas técnicas de manejo e também a industrialização do produto, já que 90% do comércio de ostras no Brasil é feito com o molusco vivo.
Brognoli disse que as perdas no setor causam ainda redução -de 130 para 95- no número de produtores no Estado.