quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Tragédia já é a mais letal das Américas

Da folha de São Paulo

Caio Guatelli/Folha Imagem

Até ontem, governo haitiano havia sepultado 72 mil mortos, e crescia a preocupação mundial quanto aos órfãos haitianos

Precariedade das condições faz com que as agências temam uma crise sanitária e surtos de febre tifoide, hepatite A e hepatite E



A haitiana Anante Fleriscas, resgatada dos escombros com fratura na bacia, é atendida no hospital de campanha da Força Aérea Brasileira em Porto Príncipe

DA REDAÇÃO

O governo do Haiti havia sepultado até ontem 72 mil vítimas desde terça passada, segundo seu premiê, Jean-Max Bellerive. Isso faz do terremoto de 7 graus na escala Richter a mais letal tragédia das Américas em todos os tempos e um dos piores terremotos do mundo nos últimos cem anos.
Segundo o haitiano, "muitíssimos" outros cadáveres foram enterrados pelas próprias famílias e estão fora das estatísticas oficiais. A estimativa total de mortos no país permanecia entre 100 mil e 200 mil mortos e 250 mil feridos.
Até a divulgação do número de vítimas por Bellerive, a catástrofe com mais mortos no continente era o terremoto de intensidade 7,9, que vitimara 66 mil pessoas na localidade peruana de Chimbote em 1970.
Levando-se em conta o número de mortos em decorrência de terremotos em todo o planeta, o sismo do Haiti já é o sétimo na lista dos que mais mataram nos últimos cem anos, de acordo com dados compilados pelo Instituto de Pesquisa Geológica dos EUA.

"Esperança persiste"
A ONU disse ter resgatado das ruínas mais de 90 pessoas vivas desde terça passada -recorde em situações do tipo. "A esperança de encontrar sobreviventes persiste", declarou, em Genebra, Elisabeth Byrs, porta-voz da ONU para assuntos humanitários, assinalando que ontem foram encontradas mais duas mulheres vivas sob os escombros de uma universidade de Porto Príncipe. Também na capital, socorristas disseram ter detectado indícios de vida humana sob um banco que desabou.
No entanto, calculava-se que milhares de mortos ainda seguissem soterrados. As atenções mundiais também se voltaram às crianças haitianas, à medida em que mais delas apareciam desamparadas, sem que equipes de resgate tivessem notícia do paradeiro de seus pais e parentes.
Num hospital de campanha israelense, uma criança de cinco meses era identificada só por um número. Ninguém sabia quem havia deixado o bebê ali, semiconsciente e recém-saído dos escombros. "O que faremos com ele após tratá-lo?", questionava-se um médico.
A cifra de órfãos criados pelo terremoto pode chegar a dezenas de milhares -em um país que já tinha 380 mil menores abrigados em orfanatos antes da tragédia de terça.
Grupos internacionais tentam agilizar o processo de adoções das crianças -mas a adoção deve ser a "última opção", disse ontem a Unicef, só após se tentar, a todo custo, encontrar as famílias dos menores.
Ontem, voo com 53 órfãos haitianos chegou aos EUA para que eles sejam adotados lá. Hoje deve chegar a Porto Príncipe um avião do governo holandês, em missão para localizar 109 crianças cuja adoção por famílias holandesas estava em andamento antes da tragédia.

Crise sanitária
As agências humanitárias também se preocupam com o risco de uma crise sanitária no Haiti. Sem banheiros para os flagelados e com acampamentos precários lotados com até 40 mil pessoas, o alcance de doenças simples, mas potencialmente fatais, se multiplica. A Organização Mundial da Saúde vê risco de surtos pontuais ou mesmo epidemias (mais disseminadas) de febre tifoide, hepatite A e hepatite E.
Alerta também para a ameaça do cólera, doença que se espalha pelo consumo de água suja. O Haiti já não tinha coleta regular de esgoto. Com o terremoto, segundo os assistentes humanitários, nem privadas e fossas suficientes há na capital. Na descrição do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, "por toda Porto Príncipe o cheiro de urina é dominante".
Fezes se acumulam. "Faltam latrinas, e há tanta gente aglomerada... Eles acampam onde podem", disse à Folha Marçal Izard, porta-voz do CICV. Diante da falta de água limpa, alerta o CICV, as pessoas têm usado água suja para tomar banho e, às vezes, cozinhar ou beber. "Nosso foco é fornecer água potável", afirma Izard. Ainda assim, as agências não registraram por ora um aumento nos casos de cólera, diarreia e outras doenças ligadas à falta de saneamento. A OMS também chama a atenção para o risco de surtos de doenças causadas por aglomeração, como tuberculose, sarampo, difteria e meningite.

Colaborou LUCIANA COELHO, de Genebra

Com agências internacionais