quinta-feira, 8 de outubro de 2009

MST deixa plantação após depredar imóveis e tratores

Da Folha de São Paulo

Faxineira da Cutrale diz que foram levados DVD, TV, rádio, chuveiro e "até as lâmpadas'

Líderes do MST dizem que as acusações são "armação" contra o movimento e que eles só destruíram 3.000 pés de laranja da propriedade

MAURÍCIO SIMIONATO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM IARAS

Um cenário de destruição e depredação foi encontrado na fazenda de plantação de laranja da Cutrale em Iaras (271 km de São Paulo), desocupada ontem pelo MST após decisão de reintegração de posse da Justiça.
Famílias de funcionários que moram na fazenda disseram que suas casas foram depredadas e tiveram objetos furtados.
Todos os 28 tratores da fazenda foram danificados (tiveram a bateria e outras peças retiradas), sendo que dois foram desmontados. Quatro caminhões também foram danificados. Os veículos foram pichados com a sigla MST. Defensivos agrícolas foram esparramados pelo chão e pelas paredes. Um computador foi queimado.
"Levaram DVD, TV, rádio, roupas, calçados, inalador, ferro de passar roupa, o chuveiro e até as lâmpadas e as torneiras", declarou Silvana Fontes, 37, cozinheira e faxineira da sede da fazenda. A Folha foi à casa dela e viu que a janela apresentava sinais de arrombamento.
Silvana, casada há três meses com um vigilante da empresa, Adriano Feliciano, 30, disse que alguns dos objetos furtados eram presentes de casamento e nem sequer haviam sido tirados das caixas. "No dia em que invadiram, deram duas horas para sairmos de casa."
A Folha entrou na fazenda após o MST deixar o local. Na frente da casa de um dos funcionários, um poste e um muro foram derrubados com tratores. Apenas uma das nove casas não foi arrombada. A sede da fazenda também tinha sinais de vandalismo, como pichações e lixo jogado pelo chão.
A Cutrale e as polícias Civil e Militar atribuem o vandalismo, o furto e a destruição ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), que havia invadido a área no último dia 28, com 250 famílias.
Os líderes do MST disseram ontem que as acusações são "uma armação na tentativa de criminalizar o movimento".
Pelo menos 120 homens da PM, da Polícia Ambiental, da Polícia Rodoviária, do Corpo de Bombeiros e da Polícia Civil cercaram o local no início da manhã -a PM mobilizou um helicóptero para a operação.
Os integrantes do MST deixaram o local sem resistir à ordem de reintegração de posse, determinada anteontem pela Justiça do Estado, atendendo a pedido da Cutrale. Eles saíram em três caminhões cedidos pela Cutrale e em carros particulares. Foram para assentamentos e casas de parentes.
No início da semana, os invasores destruíram parte da plantação de laranjas com um trator. Segundo o MST, foram 3.000 pés. Segundo a Cutrale, foram destruídos entre 7.000 e 10 mil pés. Os prejuízos com a ação podem chegar a R$ 3 milhões. A fazenda tem cerca de 1 milhão de pés de laranja.

Investigação
A Polícia Civil abriu inquérito. Segundo o delegado Jader Biazon, serão apurados os crimes de formação de bando ou quadrilha, esbulho possessório, dano e furto qualificado.
O MST alegou que a área pertence à União e a Cutrale se apropriou indevidamente.
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de SP disse que a sociedade deve ficar "atenta aos desdobramentos dessas ações, porque elas comprometem a própria existência da democracia".