segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Fragilidade está na rede integrada... Dizem especialistas

Brasil precisa de plano B de energia
Plano B para Copa e Olimpíadas
Autor(es): Gustavo Paul, Mônica Tavares e Eliane Oliveira
O Globo - 16/11/2009

Para evitar apagões, especialistas indicam reforço na transmissão e novos sistemas de geração

BRASÍLIA O Brasil precisará de um plano B de energia para garantir a tranquilidade do fornecimento de luz durante a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio, afirmam especialistas do setor elétrico ouvidos pelo GLOBO. Para eles, o apagão na terça-feira da semana passada deve ser encarado como um alerta de que não basta apenas construir grandes hidrelétricas e novas linhas de transmissão.

Para dar confiabilidade ao sistema e evitar surpresas deve-se rever o planejamento e tomar providências.

Estas vão do reforço da rede de transmissão até a instalação de sistemas paralelos de geração, próximos aos grandes centros, o desenvolvimento de novas tecnologias e a construção de instalações que façam uso eficiente da energia.

A queda simultânea de três linhas de transmissão de Itaipu, que levou ao colapso de outras 15 e apagou 18 estados, mostrou que uma das fragilidades do setor elétrico está justamente numa das suas principais características: a rede integrada. Para contornar esse problema, a solução mais lembrada pelos especialistas é diversificar a matriz energética, investindo em formas alternativas e mais próximas dos grandes centros, como usinas térmicas a gás, biomassa (palha de cana, por exemplo) e eólica. No caso de o sistema interligado cair, essas usinas poderão suprir a demanda local.

Investir na geração próxima às cidades O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), Adriano Pires, lembra que é necessário investir nestas formas de geração nas proximidades das grandes cidades principalmente durante a Copa. E é preciso investir em um sistema de proteção mais adequado das linhas de transmissão.

— O problema é transmissão e isso leva à necessidade de diversificação da matriz com uma lógica regional — disse Pires.

O consultor de energia renovável e sustentabilidade da Trevisan, Antonio Carlos Porto Araújo, lembra que, além da Copa e das Olimpíadas, há o esperado crescimento econômico pós-crise. Se, nos próximos sete anos, a economia crescer cerca de 5%, o país terá de dobrar a sua oferta de energia, com um acréscimo de cem mil megawatts: — Sem contar a questão social, pois há previsão de atender, com energia elétrica, cerca de 5,5 milhões de famílias, o que daria algo em torno de 20 milhões de pessoas. É um público que necessita de o equivalente a mais de meia Itaipu, ou ao menos 8 mil MW.

O consultor Afonso Henriques, exsecretário de Energia do Ministério de Minas e Energia, defende que as principais cidades — entre elas as 12 sedes da Copa e dos Jogos — contem com um sistema de cogeração, ou seja, uso de insumos e sobras na produção agrícola e industrial pelas empresas, de forma a reduzir a dependência do sistema interligado. Para ele, ainda há tempo de preparar as cidades que vão receber os jogos da Copa e o Rio, para as Olimpíadas. É necessário, afirma, incentivos para que o metrô, por exemplo, instale geração própria.

O ex-presidente da distribuidora Eletropaulo Eduardo Bernini diz que além de investimentos em transportes, estádios e aeroportos para os Jogos, as autoridades têm de ficar atentas para a necessidade de investimentos na rede de distribuição.

— As consequências da falta de investimentos em um ano só aparece três a quatro anos depois. As distribuidoras atuam no varejo da energia — afirma.

Os exemplos não faltam. No início de novembro, 400 transformadores em 30 bairros do Rio desligaram, deixando 1.500 clientes sem eletricidade, devido ao grande uso de aparelhos de arcondicionado e ventiladores. Segundo técnicos, isso sobrecarregou o sistema, e a solução é instalar mais transformadores ou com potência maior.

Sistema inteligente anteciparia problema

Investimentos em tecnologia são outra saída. O consultor Cyro Vicente Boccuzzi, ex-vice-presidente da Eletropaulo, aponta para a necessidade de o país adotar o chamado smart grip, tendência que vem crescendo no mundo, de fornecimento inteligente de energia. Esse sistema deverá ter regras unificadas em todo o planeta até o fim de 2011 e prevê sistemas inteligentes de detecção de problemas nos sistemas de energia, para anteciparse aos problemas: — O sistema atual não tem desligamento seletivo. A energia é cortada em grandes regiões. Isso pode ser mudado com uso da tecnologia de informação.

Ao mesmo tempo, o sistema prevê geração de energia localizadas — como a solar — em casas, edifícios e estádios, que garantem o abastecimento mesmo se a rede entrar em colapso. A tecnologia existe e, diz Boccuzzi, deve se disseminar no mundo em 2012: — O problema que ocorreu mostrou para a sociedade que os sistemas atuais têm tecnologia que não atende às necessidades da sociedade. Ainda temos uma filosofia de 50 anos atrás.

Claudio Salles, o presidente do Instituto Acende Brasil, órgão que reúne investidores privados no setor, adverte que, além da geração localizada, também devem ser levados em consideração novos investimentos na rede de transmissão, aumentando as linhas de reserva, para o caso de queda de dois ou mais circuitos. Ele defende um novo planejamento setorial: — Temos de melhorar a qualidade do planejamento e espero que o apagão tenha servido para isso.

As cidades sedes da Copa do Mundo também terão de optar por soluções criativas. Uma delas poderá ser construções que usem menos energia, com aparelhos de ar-condicionado mais eficientes e que usem menos iluminação artificial, defende o presidente da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia (Apine), Luiz Fernando Vianna: — O planejamento terá que definir se o suprimento de energia da Vila Olímpica no Rio vai ser local, com termelétricas, ou por meio de linhas de transmissão.