segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Senadores assediam Petrobras por verbas

Da Dolha de São Paulo
Levantamento da estatal revela que 8 dos 18 integrantes de CPI que a investiga pediram patrocínio entre 2000 e 2004

Foram feitas solicitações de ajuda para filme, escola de samba e prova de motocross, entre outros; interferência em investigação é negada

RUBENS VALENTE
DA REPORTAGEM LOCAL
ELVIRA LOBATO
DA SUCURSAL DO RIO

Alvo de uma fracassada CPI no Senado, a Petrobras é assediada com frequência por senadores atrás de verbas para custear todo tipo de evento, de patrocínios a filmes e provas de motocross a renovação de contratos com rádios do interior.
Há dois meses, logo após a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito que deveria investigá-la, a Petrobras fez, em sigilo, um levantamento dos pedidos encaminhados pelos senadores desde 2000. A Folha teve acesso aos dados que vão até o ano de 2004. São 50 páginas de tabelas que registram a data, o objeto do pedido e o nome do congressista.
O levantamento registra que pelo menos oito, dos 18 senadores que integram a CPI -incluindo o relator, Romero Jucá (PMDB-RR), e o vice-presidente da comissão, Marcelo Crivella (PRB-RJ)-, fizeram algum tipo de pedido à petroleira. Os líderes dos principais partidos e o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), também buscaram na companhia apoio financeiro a projetos diversos.
Instalada em julho, a CPI ficou sob comando do bloco governista e pouco investigou. Sob protesto da oposição, que ameaça abandoná-la, a comissão deverá isentar de qualquer irregularidade os principais gestores da estatal.
Ao todo, 32 senadores fizeram pedidos à petroleira entre 2000 e 2004. A mais insistente foi Ideli Salvatti (PT-SC), com dez pleitos. Ela pediu recursos para uma escola de samba de Florianópolis e um projeto de coleta de lixo e a instalação de ar condicionado numa biblioteca pública. Procurada, a assessoria não se manifestou.
Os líderes têm papel fundamental nos acordos em torno da CPI. Osmar Dias (PR), líder do PDT, formulou sete pedidos até 2004. Ele queria recursos para custear a festa de Nossa Senhora do Rocio em Paranaguá (PR) e encaminhou uma "proposta de parceria formulada pela rádio Timburi FM, da cidade de Andirá (PR)".
Dias afirmou que se sente desconfortável em pedir os recursos. "Acho um horror. Às vezes, eu me sinto um despachante, mas não posso me negar a atender um pedido."
O senador afirmou que ser procurado por pessoas que querem patrocínio da Petrobras "não é comum, é [de fato] a regra". "Ninguém consegue acesso à Petrobras a não ser com interlocução política."
Líder do PRB, além de vice-presidente na CPI, Crivella queria apoio da Petrobras a um festival nacional de cantadores repentistas e ao "Projeto Nordeste", que funciona na Fazenda Nova Canaã, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus em Irecê (BA). O senador disse que não recebeu resposta da estatal sobre seus pedidos, e que, "portanto, não foram atendidos".
Crivella não vê problema na CPI: "Como vice-presidente da CPI, estou satisfeito, pois todos os questionamentos, até agora, foram respondidos".
Delcídio Amaral (PT-MS) aceitou dar à Folha acesso a todos os seus pedidos, incluindo os do período 2004-2009. Endereçou 39 pleitos à Petrobras, e disse ter tido apenas um atendido -a transferência de um funcionário da companhia, a pedido do próprio servidor.
O senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) pediu patrocínio para três projetos entre 2001 e 2003: o filme "Parusia, a Ira do Juízo", o 30º Congresso Nacional dos Jornalistas e um projeto da Escola Superior de Magistratura do Amazonas.
"Não vejo crime nem pecado no fato de o político enviar um pedido à estatal, para que, dentro da lei, e se for da conveniência dela, ajude um projeto. Outra coisa é criar uma Oscip [espécie de ONG] para ficar rico. O que fiz não interessaria a CPI nenhuma, mas o que alguns fizeram tanto interessa que eles não deixam apurar", disse.
A reportagem pediu à Petrobras acesso a todos os pedidos de congressistas entre 2000 e 2009, mas a estatal não os forneceu, sob alegação de que não tem os dados consolidados.