quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Multidão sim; ovação, não

Democrática bagunça
Autor(es): André Miranda
O Globo - 19/11/2009

No fim, apesar de praticamente toda a plateia a favor do personagem, não houve a ovação que se esperava na cerimônia de abertura do 42oFestival de Brasília, na noite de anteontem. Em sua primeira exibição aberta, “Lula, o filho do Brasil” lotou perigosamente o Teatro Nacional Cláudio Santoro de espectadores afoitos por assistir à tão falada cinebiografia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O filme, dirigido por Fábio Barreto, apresenta a trajetória de Lula (vivido em três fases por Felipe Falanga, Guilherme Tortolio e Rui Ricardo Diaz), do nascimento até a morte de sua mãe, dona Lindu (Glória Pires), em 1980, quando ele era líder sindical e estava preso.

— É um filme para mostrar como o povo brasileiro é perseverante e corre atrás do que quer. É uma homenagem a ele — disse Barreto.

Roteiro do filme é segmentado demais

A ideia do diretor é que o brasileiro médio se identifique com a história de um nordestino que veio para São Paulo ainda criança e que, após superar adversidades, chegou à Presidência da República.
Mas fica uma pergunta: como se faz para resumir uma trama tão cheia de detalhes? Nessa tentativa, o filme parte de um roteiro excessivamente segmentado e de dramaturgia limitada. Até o período das greves dos metalúrgicos, no fim dos anos 1970, o que se vê são esquetes que servem para compor uma personalidade exageradamente heroica. Na infância, a professora (Lucélia Santos) enaltece a esperteza do menino. É Lula, o inteligente.
Pouco depois, ele encara o pai, Aristides (Milhem Cortaz): “Não bate na mãe, homem não bate em mulher”. É Lula, o corajoso.
Na adolescência, ele divide um terno com um amigo para poder entrar no cinema. É Lula, o malandro.
Mais velho, quando presencia o assassinato de um dono de fábrica que havia atirado num grevista, o personagem foge e recrimina a selvageria.
É Lula, o sensato. Há ainda os Lulas galanteador, jogador de futebol, sensível, bom filho, orador...
São muitos os predicados para construir um único herói. Muitas sequências esparsas para um único filme.
Apenas com as greves é que o longa-metragem ganha em emoção.
A tensão surge tanto ao se descobrir como Lula vai conseguir ser o mediador dos pensamentos divergentes dentro do sindicato quanto ao acompanhar os últimos dias de dona Lindu. Na melhor cena do filme, o protagonista sobe num palanque dentro de um estádio de futebol e pede para que os “companheiros” reverberem suas palavras para trás, enquanto a polícia começa a cercar o local. Formase, então, uma onda humana, bem coreografada e dirigida.
No elenco, o destaque é Rui Ricardo Diaz. Ele consegue equilibrar bem as responsabilidades política e pessoal que o personagem carrega. O ator interpreta um Lula adulto sereno, cordial e humilde, e demonstra talento ao construir com suavidade a mudança da postura do operário desinteressado por política para a do líder sindical.
Glória Pires deixa clara sua usual qualidade artística como dona Lindu. São dela as cenas mais emotivas do filme, apesar de seu papel aparentar ser apenas uma escada para Lula brilhar. Aliás, todos os outros atores passam pela mesma situação. Juliana Baroni (dona Marisa, atual primeira-dama) e Cléo Pires (Lurdes, primeira mulher de Lula) têm participações pouco expressivas.

Mercado crê em bilheteria recorde

É preciso, ainda, analisar o momento da estreia de “Lula, o filho do Brasil”, marcada para 1º de janeiro em 500 salas (quase 25% do parque exibidor do país). O filme poderia ter as mesmas cenas, atores e a montagem e ter sido lançado há dez anos, ou daqui a cinco.
Em ambos os casos, seu impacto seria diferente — não se sabe se melhor ou pior, mas lidaria com uma perspectiva distinta do público em relação ao personagem.
Hoje, a popularidade do presidente Lula é alta, e o longa-metragem de Fábio Barreto se favorece disso, tanto que o mercado acredita na possibilidade de o filme bater recordes de bilheteria.
A opção pelo enfoque dado ao personagem definitivamente não é inconsciente.
Outro ponto acerca do lançamento é saber se “Lula, o filho do Brasil” terá algum efeito na próxima eleição presidencial, em outubro de 2010. Depois de já ter cumprido dois mandatos, o presidente não poderá ser candidato, mas tem intenções de eleger como sua sucessora a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef. Em 2004, o cineasta americano Michael Moore, ferrenho opositor do governo republicano de George W. Bush, lançou o documentário “Fahrenheit 11 de Setembro”. O filme de Moore chegou aos cinemas em junho, e a eleição americana ocorreu em novembro.
Mas, apesar de “Fahrenheit...” ter sido um sucesso de público e de ter acusado o governo dos EUA de diversas irregularidades, Bush acabou reeleito.

— O povo brasileiro está num patamar alto de maturidade e não vai votar em alguém por causa de um filme — disse, ao fim da sessão, o presidente nacional do PT e deputado federal Ricardo Berzoini.
Numa cena de “Lula...”, porém, seu irmão Ziza (Sostenes Vidal) diz que “falta alguém diferente, que pense diferente”, na tentativa de atrair Lula para o sindicato dos metalúrgicos. A frase tem todo o jeito de slogan de campanha. Tanto que políticos ligados ao PT já procuraram a produção do filme com a intenção de agendar exibições em suas cidades. Os pedidos foram negados, e a produtora Paula Barreto garante, ainda, que vai processar qualquer um que utilize cenas com intuito eleitoral. Resta saber se os milhões de espectadores que o filme provavelmente terá conseguirão separar a ficção da vida real.